sexta-feira, 20 de maio de 2011

Doutores de uma educação de tinta e papel.

Imaginemos que a educação fosse a saúde pública, que um Hospital Geral fosse a sala de aula e que um médico deste hospital fosse um professor. Este médico atende nas emergências, dá plantões exaustivos e ainda viaja para trabalhar nos interiores do Estado para completar o salário. Em certo momento um Doutor em Saúde Publica, que nunca passou na porta de um HG, muito menos deu plantões ou precisou fazer viagens para completar o salário e não teve a oportunidade de correr o risco diário de ser espancado por um paciente ou familiar que não tivesse satisfeito com o atendimento, resolvesse criar teorias sobre como se trabalhar nos HGs e de cara lhe dissesse, o salário não é importante, o que importa é o amor pelos pacientes, e outra, a culpa da saúde pública está assim é sua que não trabalha direito, sua abordagem com os pacientes é equivocada, tem que ter amor, você deve ter o tempo para se capacitar e melhorar o atendimento aos pacientes, e outra, esses argumentos de que o hospital não tem estrutura, que as macas são improvisadas e que não existem leitos para todos os pacientes não são validos, possa ser que sejam reais, mas não impossibilita que você faça um excelente trabalho e salve vidas.
Fico imaginando qual seria a reação desses médicos plantonistas ao ouvirem essa teoria. Possas ser que este especialista em saúde não exista, mas é um ser constante na educação. Doutores de uma educação de tinta e papel, que nunca enfrentaram a realidade de uma escola pública, que jamais tiveram sua vida ameaçada por um aluno, que não presenciaram a morte de um aluno querido por causa das drogas, que não tiveram que passar o fim de semana, que deveria ser dedicado ao lazer, tendo que preparar aulas, pois não tem tempo durante os outros dias porque está exercitando o amor em sala de aula, criam varias teorias sobre como se comportar, ou que fazer na educação. Hoje pela manhã estava assistindo a um jornal de cunho nacional e um desses doutores, estrangeiro (o que é pior, pois não conhece em nada a realidade da educação pública do Brasil), disse que o salário do professor não é importante e o que é importante é o amor e que se deveria gerar o ócio criativo na educação (momentos para reflexão, onde se estimularia a criatividade) para poder gerar mentes brilhantes.
Pois bem senhores professores das escolas públicas brasileiras, verdadeiros doutores da educação real, vamos viver de amor, para quer viver com qualidade? O que importa é o ócio, criativo. Então nada de trabalhar de 60 a 80 horas, é 40 horas no máximo, e nas outras 20 horas restantes do dia sejam criativos. Se pudesse voltar no tempo e escolher que tipo de doutor eu queria ser, jamais escolheria ser o de tinta e papel, pois a maioria esmagadora destes não conhece a realidade da educação e nunca precisaram dar aula para 45 alunos em uma sala, no turno vespertino (sol poente) sem ventilador ouvindo o “arrocha” vindo da casa ao lado e a sinfonia dos carros polícias e dos tiros vindo das “baixadas”.
Não quero, contudo, dizer que não devemos ter especialistas em educação, como educador e amante dos estudos, estaria sendo contraditório e leviano, mas acredito que seria importante e até mesmo mais produtivo para nosso desenvolvimento, que os doutores tivessem a oportunidade de vivenciar (por 1 ou 2 anos, para não exigir de mais) intensamente o dia a dia de um professor da escola pública, do salário, da estrutura, do deslocamento para as escolas, dos planejamentos variados, dentre outras coisas.  Assim poderíamos ter escrito a tinta, no papel, um pouco mais de realidade.


Marcos Moreira

Salvador, 20/05/2011.

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